Prezados trabalhadores do ensino superior... unamo-nos!
Por José Barreto dos Santos*
Quero manifestar minha preocupação no trato do volver o sindicato e a universidade pública, principalmente no momento delicado que o País atravessa, tanto pelas questões na área de saúde pública, quanto pelas situações socioeconômicas, que ora assolam as instituições como um todo.
Neste cenário acreditamos que podemos contribuir cientificamente, porque não tenho dúvida que, caso os encaminhamentos continuem negligenciando a História e a Filosofia, com certeza, não há avanços para pensarmos criticamente o Sindicato e, muito menos, a Universidade.
Pois bem, quando olhamos para a história dos sindicatos, percebemos que os mesmos se fundem com a maioria dos trabalhadores em torno das lutas de classes. Sem perder o sentido temporal, é importante lembrar das conquistas em torno dos direitos trabalhistas, principalmente a partir da Revolução Industrial, período sofrível pelas péssimas condições de vida e do trabalho fabril.
É importante salientar que no século XVIII, o capitalismo já tem suas bases consolidadas na apropriação dos instrumentos criados pelo trabalho humano; aquilo que o ser humano produziu materialmente como um meio de vida. É o sentido categórico da exploração do trabalho humano, que começa a ser espoliado pelo capital – Professora Maria Amália Andery (USP) analisa o trabalho como – Atividade humana intencional, que envolve formas de organização, objetivando a produção de bens necessários à vida humana. Seguindo nessa trilha, o Professor Demerval Saviani (UNICAMP) afirma que: Podemos, pois, dizer que a essência do homem é o trabalho.
Na medida que surgem os grandes conflitos entre o capital e o trabalho, emerge o lugar representativo do sindicato, consolidando o campo das lutas históricas contra a precarização, a exploração do trabalho e, porque não, da vida humana.
Considerando o exposto, é que entendemos o papel da ADUEMS, atuando como nosso representante nesse momento histórico, no Fórum dos Servidores do Estado de Mato Grosso do Sul, com as demais representações sindicais, trabalhando para impedir que a classe trabalhadora fique refém da PROPOSTA DE EMENTA CONSTITUCIONAL /PEC, nº 186/2019, conhecida como a PEC do ajuste fiscal, que na prática, poderá reduzir os salários e jornadas dos trabalhadores públicos em até 25%, além de retirar o piso obrigatório de investimento em saúde e educação.
Diante dessa realidade que os sindicatos assumem o importante papel político, na defesa dos interesses dos trabalhadores, na garantia dos direitos sociais, econômicos e políticos conquistados através debates e oratórias, com o intuito de reivindicar direitos e, sobretudo denunciando e exigindo melhores condições de trabalho, que ora estamos passando com o advindo da PANDEMIA – COVID-19.
No trato do trabalho Docente, a Universidade Pública também traz os traços históricos das primeiras formas de educação demandada pelo povo grego, entre Esparta e Atenas. Intento esse, em que já existem contradições entre os interesses das classes existentes. Karl Marx & Friedrich Engels já afirmavam no Manifesto Comunista, que a história da sociedade humana era a história das lutas entre opressores e oprimidos.
Atravessando a idade média, a igreja se apressou em tomar em suas mãos a educação do povo. Aníbal Ponce, historiador argentino, acentua que Escolas Monásticas eram em duas categorias: umas, destinadas à instrução dos futuros monges, em que se ministrava a instrução religiosa necessária para a época, e outras, destinadas à instrução da plebe, que no fundo não tinha nada para instruir, mas sim manter as massas campesinas dóceis e conformadas.
Ainda na idade média, importantes transformações econômicas começaram abalar as bases feudais. Assim, no século X, as cidades, que não passavam de miseráveis vilas, transformaram-se em centros de comércio a partir do século XI, o que era uma fortaleza, começava então a ser um mercado. Uma classe predisposta a uma vida pacifica e urbana, bem distinta da vida guerreira, forjam as classes burguesa e camponesa, franquiando da nobreza feudal, o espaço a sua emancipação. A burguesia que já era uma classe em si, caminha lentamente até o século XVIII, para uma classe para si, consciente que seus interesses eram distintos dos do feudalismo.
Sob a influência da nova burguesia, no século XI, abriu o caminho com o aval do clero para sua vitória intelectual, o germe da universidade é anunciado - No domínio intelectual, a fundação das universidades equivaleu à outorga de uma nova franquia à burguesia – É o florescer da ciência. Aníbal Ponce comenta que ao mesmo tempo que, no mundo cristão, se afirmava ser a terra plana [...] no califado de Córdoba, a Geografia era ensinada com o auxílio de esferas.
Francis Bacon (1561-1620, Renê Descartes (1596-1650) e Blaise Pascal (1623-1662) – O primeiro afirmava que a verdade muda com o tempo, o segundo aconselhava que só a evidência poderia convencer alguém, e o terceiro insistia em que a experimentação era o único critério seguro no campo científico. Na verdade, diante do cenário anunciado pelos filósofos da ciência, sublima as transformações na base econômica, engendradas a partir das contradições que ela mesma forja, que leva à transformação de toda à sociedade, implicando um novo modo de produção, e uma nova forma de organização política e social.
Sob a égide das transformações, coube a João Amós Comenius (1592-1671), no movimento da Reforma Protestante, apresenta uma nova proposta educativa, uma nova escola que chega até nossos dias, como afirma o Professor Gilberto Luiz Alves, - “o educador morávio pressupunha uma organização, que a equiparasse à ordem vigente nas manufaturas, onde a divisão do trabalho permitia que diferentes operações, realizadas por trabalhadores rigorosamente controlada, segundo um plano prévio e intencional que as articulava, visando produzir resultados com economia de tempo, de fadiga e de recursos.”
Contrapondo a Reforma Protestante, a Contra Reforma é entendida como uma reação da Igreja Católica ao avanço do protestantismo na Europa. Tal movimento, se deu a partir da década de 1530, advindo do Concílio de Trento, onde começaram a ser estabelecidas uma série de ações, que incluíram a catequização de pessoas por meio dos jesuítas, a reativação do tribunal da Inquisição, a proibição de certos livros considerados hereges, mas sobretudo, veio da Fundação da Ordem dos Jesuítas em 1535 a orientação do seu fundador, Inácio de Loyola, a ideia da difusão do catolicismo pelo mundo por meio das missões de catequese.
Nesse contexto que, no caso brasileiro o Reino de Portugal assumiu o catolicismo como religião oficial, deixando um legado de 210 anos (1549-1759) na educação colonial.
Desse modo, ressalta o Professor Amarílio Ferreira Junior (UFSCar) – [...] Assim, a história da educação brasileira não pode, desde a sua origem, ser desassociada da educação europeia. Ela é fruto, diretamente das ações econômicas desencadeadas pela burguesia mercantil, das grandes navegações e, como já foi dito, das reformas religiosas. [...].
Assim sendo a educação brasileira, nasceu com o pensamento europeu, pautado na proposta de ensinar tudo a todos, todavia com uma outra lógica econômica, enquanto que no movimento político liberal de transformação europeia as condições materiais do processo de produção social, era a manufatura no movimento urbano. Inversamente no Brasil, o modelo colonizador português baseado no latifúndio, na mão de obra escrava e na monocultura da cana-de-açúcar, no movimento do campo, deixava sua marca histórica, como destaca o Professor Amarílio Ferreira Junior (UFSCar), - [...] sendo a matriz socioeconômica da educação de elite, pois excluía da escolaridade o grande contingente da população que era formada de escravos. [...].
Neste sentido é que defendemos como caminho a História, para pensarmos a educação superior brasileira, em especifico a nossa UEMS. Defendê-la como um espaço científico, onde as contradições se retroalimentam pelas variantes filosóficas, o pensar a sociedade que queremos, como também, pensarmos a Universidade que podemos almejar.
Do ponto de vista teórico-metodológico não podemos negligenciar a História, porque a história é a mesma, o que muda é a maneira como ela é contada, comentava o escritor, Ariano Suassuna! O modelo escravocrata só mudou o nome... agora é conhecido como AGRONEGÓCIO. Historicamente nossa luta continua sendo a LUTA DE CLASSE!
Assim sendo, é necessário ressaltar a importância da Associação dos Docentes/UEMS como espaço político que representa nossos antagonismos, consequentemente as ideias também refletem nossas diferenças no campo, por melhores condições de trabalho e sobrevivência.
Penso que, enquanto não entendermos o nosso papel social, como ser social, não entenderemos o nosso protagonismo como educadores críticos por mudanças e transformações. Caso contrário, continuaremos vítimas da autofagia do elitismo e da excludência.
*Doutor em educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); Professor das licenciaturas na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS – UUCG); filiado à ADUEMS.
Comentários
Postar um comentário